Homeless World Cup: torneio de futebol para pessoas socialmente vulneráveis leva para Noruega brasileiro que nunca saiu do Rio

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O jovem Carlos Henrique Cordeiro, está no terceiro ano do ensino médio, é morador do Complexo do Alemão, um jovem que busca trabalho para ajudar dentro de casa com seus dois irmão, mãe e padrasto. Ele ainda não havia saído do Rio de Janeiro em seus 19 anos de vida, mas tudo mudou no último mês, quando se tornou uma das 500 pessoas convidadas em todo o mundo para ir à Noruega participar da Homeless World Cup.

O torneio de futebol ocorre anualmente e leva diversas pessoas em condições sociais vulneráveis — estejam elas em situação de rua, morando em albergues ou casas sem saneamento básico e condições mínimas para o bem-estar social — para viverem o clima de disputa de uma competição de futebol e conscientizar sobre a necessidade de uma moradia digna para todos. Ao longo da semana participaram 500 pessoas de 40 países para a 20º edição.

— Nunca havia saído do Rio de Janeiro. Foi a primeira vez. Agora estou na Noruega — diz Manhães. E completa: — Estou tentando levar para a Noruega o nome da minha cidade, do Complexo de Alemão de forma positiva.

Carlos Henrique durante uma das partidas — Foto: Divulgação/HomelessWorldCup
Carlos Henrique durante uma das partidas — Foto: Divulgação/HomelessWorldCup

Também conhecido como “Pulguinha”, Manhães foi um dos oito brasileiros (seis homens e duas mulheres) que passaram nas peneiras realizadas pelo Futebol Social com parceiros em todo o Brasil, para encontrar jovens que unissem o amor ao jogo com a possibilidade de se desenvolver para melhorar de vida.

— Quando fui convocado, (meus familiares) me fizeram uma surpresa. Eu estava indo para a escola, mas me seguraram dizendo que uma pessoa tinha morrido, então me gravaram enquanto falavam da convocação, para terem a minha reação. Fiquei muito feliz — diz o jogador. Ele é um dos artilheiros da competição com 15 gols.

Equipe brasileira na Homeless World Cup — Foto: Anita Milas/HomelessWorldCup
Equipe brasileira na Homeless World Cup — Foto: Anita Milas/HomelessWorldCup

Usando o futebol como um motivador e ponto de união para participantes e o público local, a Homeless World Cup Foundation leva novas oportunidades e experiências para os jogadores, assim como abre espaço para discussões sobre política social, moradia e soluções para o problema global da falta de moradia — segundo a ONU mais de 1,1 bilhão de pessoas vivem em favelas ou assentamentos. Com isso, além de viverem a experiência única, podem voltar com uma nova visão de mundo para melhorar o seu ambiente.

— Para quem nunca saiu da favela, conhecer outros ares, uma outra cultura, novas pessoas tem sido legal demais. Mas o que mais me marcou foi quando vencemos a África do Sul e, mesmo após perderem, eles nos chamaram no centro do campo e começaram a dançar em nossa homenagem — diz.

O fundador do Futebol Social, Guilherme Araújo, e um dos organizadores da seleção brasileira.

— Todas as pessoas que estão aqui (no torneio) sofrem com falta de moradia adequada. E sem isso não tem desenvolvimento. Não podemos esperar que um local sem infraestrutura básica, sem saneamento básico, com várias pessoas, num cômodo pequeno e com violência irão se desenvolver plenamente. Então nossa luta, é levantar luz nesse problema — diz. E completa: — No Brasil trabalhamos com quilombolas, ribeirinhos, favelas, palafitas e todas as pessoas que se enquadram nesta moradia precária.

Onde assistir a final da Homeless World Cup

A cada ano o evento ocorre em um país diferente e com jogadores diferentes. Desta vez voltou a Oslo, capital norueguesa, após sete anos. O fato de ser a cidade que o Brasil ganhou o torneio pela última vez, em 2017, serve como um motivador para a equipe buscar o próximo, embora a seleção não tenha conseguido se classificar para lutar pelo troféu principal. Mas disputará o alternativo, uma espécie de campeonato de repescagem, contra a Costa Rica, neste sábado, às 10h45 (horário de Brasília).

O confronto será transmitido no Youtube da Homeless World Cup e no aplicativo da Fifa, uma das parceiras.

Brasil x República Tcheca — Foto: Anita Milas/HomelessWorldCup
Brasil x República Tcheca — Foto: Anita Milas/HomelessWorldCup

Além da luz ao problema social, Araújo ressalta a importância do evento como um motivador para a mudança individual.

— A gente costuma dizer que é um chacoalhão, uma transformação que os faz enxergar a vida e possibilidades de outra maneira. Ideias, sonhos acabam surgindo e eles ganham força para realizá-los — diz o fundador da fundação. E continua: — Uma situação comum para as pessoas nesta realidade é ter que pagar contas, sobreviver, mas essa experiência internacional, essa vivência motiva as pessoas a querer ter uma vida melhor e enxergar o caminho de forma diferente.

Como funciona o jogo

As regras do jogo lembram o clássico “showbol”. Os oito jogadores se dividem em quatro titulares e dois reservas, além de um técnico e um gerente. As partidas são dinâmicas: dois tempos de 7 minutos cada, com 1 minuto de intervalo e as substituições são livres e ilimitadas, permitindo que todos possam participar e ter a chance de fazer gol nas pequenas traves de 1,30m de altura e 1m de profundidade.

Outra regra contribui para o dinamismo do jogo é que o time que está na defesa deve manter um dos jogadores no campo de ataque, assim quem estiver com a bola sempre terá a vantagem de 3 jogadores de ataque contra 2 de defesa no campo de 22m x 16m.

Mas diferente de outros torneios, as faltas são rigorosas para que o espírito de respeito e fair play se sobressaia à competitividade.

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